29 de setembro de 2009

Perfil Ahl-i-Batin (Batini)

O vento fala. Às vezes como o sussurro de um amante, outras como o grito de um sirocco. Como o vento, os Ahl-i-Batin parecem não ter forma, sendo invisíveis e elementais. Como o vento, eles falam através de muitas vozes.

Mestres da Conexão, esses místikos atravessam grandes distâncias com facilidade. Durante as Cruzadas, assassinos Batini derrubaram reis; agora seus diplomatas alisam as penas eriçadas enquanto seus guerreiros fazem tréguas mais duradouras. Quando surge a necessidade, esses magi aparecem, realizam seu dever e somem.

Os laços dos Batini com o Conselho são mais profundos: muito tempo atrás, convites misteriosos convocaram dezenas de magi. Na casa de um mercador árabe, os convidados estabeleceram os planos para a Teia da Fé. Eles acabaram por perceber que seu anfitrião era um feiticeiro inferior agindo em nome de uma sociedade maior: os Ocultos, cujo nome — Ahl-i-Batin — significa "sutil" e "interior".

Por trás desse nome enganoso encontra-se um laço comum a todos os grupos. Quinhentos anos antes de Cristo, uma guerra arcana levou a uma união bizarra. Um grupo de Irmãos de Akasha cansado da guerra se encontra por acaso em meio a uma dança Extática; juntando-se a ela, um de seus membros subitamente uniu-se a um Extático, criando uma entidade com dois rostos chamada de Khwaja al-Akbar. Numa série rápida de revelações, ele anunciou a Doutrina da Unidade, em que todas as partes da Divindade deveriam ser reunidas num único e inefável todo. Os grupos de guerra das outras seitas interromperam essa "Noite de Fana." A batalha resultante transformou as planícies férteis num deserto. Assim nasceram os Ahl-i-Batin.

Após essa noite, os sobreviventes tornaram- se miragens. Unindo suas antigas Artes às revelações arcanas de Khwaja al-Akbar, eles transcenderam o espaço mortal. Num vão entre o tempo e a distância, os Batini descobriram o Monte Qaf, o coração da Criação. Ali eles construíram a cidadela de Sihr Maqamut e estabeleceram um laço de união através de uma rede telepática — o Naffas Allah, ou "Sopro de Deus." Ao longo de diversos séculos, os Batini se espalharam pelo Oriente Médio, plantando o conhecimento entre as tribos guerreiras. Em suas viagens, os Sutis enfrentaram os Whash (Desauridos), Mafgouh Doudi (Nefandi) e outros inimigos seculares. Para prevalecer, os Batini empregaram disfarces, furtividade e artifícios. Seu convite para os outros grupos propiciou novos aliados. Logo o Islã lhes concedeu um propósito.

Sem dúvidas, a Teia da Fé foi o berço da futura Convocação. Através de emissários, professores e assassinos ocasionais, os Sutis agora orientam as Tradições fragmentadas em direção à Unidade da qual falou Khwaja al-Akbar. Apesar do esforço do grupo, a maioria dos magi europeus não conhece os Batini; aqueles que conhecem consideram-nos muçulmanos hereges. Embora os Batini abracem devotamente a fé de Maomé — uma extensão Divina de sua própria doutrina — o grupo permanece oculto por trás de véus de segredos. Os poderes fantásticos dos Fana são abominações para a maioria dos filhos do Profeta, de forma que os Batini continuam "sutis" até hoje.

Como indivíduos, os Batini costumam ser um povo charmoso e trabalhador. A palavra "feiticeiro" é um insulto para eles, mas a maioria irá tolerar "magus". O Sutil comum chama-se de khilwat — ou silêncio. Esse termo estranho refere-se tanto à comunicação telepática que os Batini preferem como o silêncio anterior à grande revelação. Nesse silêncio, Alá sussurra aos Iluminados, e esse sussurro segue como o vento.

Filosofia: A sabedoria não vem do isolamento, mas da experiência. O aprendizado é fundamental, mas a maturidade é ainda mais. A maioria dos Murids (magi experientes) dominou a Mente bem o suficiente para alcançar uma empatia profunda pelas outras pessoas. Combinado com suas viagens, estudos e doutrinas, um khilwat espelha o conceito da própria Unidade.
A Unidade encontra-se na essência de nossas crenças. O Divino dorme em todos, mesmo nos descrentes. Todas as coisas estão ligadas a Alá; com Sua ajuda, aproximamos um pouco as ligações. A sabr — perseverança — fortalece os homens, e a generosidade torna-os virtuosos.
(Infelizmente, as Cruzadas e a Reconquista zombam da Doutrina da Unidade. Certamente Alá nunca planejou isso! Frente à ignorância e à traição, os Sutis ensinam quando podem e matam quando precisam. O reconforto eterno "La ilaha Ma 'llah" — "Não há Deus além de Alá" — nunca está longe de seus lábios.)

Estilo e Ferramentas: A mágika é um presente de Alá para Seus muttaqi (servos devotos). Um Murid realiza seus milagres através de preces, meditação, cânticos e música. A matemática esotérica rompe as correntes do preconceito e a dança liberta a mente e o corpo. Alguns khilwati praticam alquimia, mas mesmo esses povos prezam as riquezas espirituais em detrimento das materiais.

Organização: Alguns Batini evitam a discrição; vestidos com adornos de diversas culturas, eles se deleitam com o esplendor árabe. Khilwat sutis se disfarçam e ocultam seus talentos místikos. Apesar dos preconceitos, muitos Batini são mulheres — membros respeitados, se não iguais, da sociedade. Elas assumem o título de shaykha e favorecem a adivinhação e a narração.
A maioria dos Batini são Murids, magi de conhecimento limitado. Reunidos em khanaqahs (casas), eles cuidam das questões terrenas. Khilwati realmente sábios adquirem um status de Murshid e viajam para o Monte Qaf, nos Outros Mundos. Em seu lares, os shaykhs (-Murids de nível elevado) mantêm harraams, locais de descanso para magi cansados. Cada membro do khanaqah adquire seu título a partir de uma atividade doméstica (o Padeiro, o Portador do Cálice, etc). O Sopro de Deus liga todos eles e permite que os Batini se reúnam através de grandes distâncias.

Primus: Ali-beh-shaar representa sua Tradição, mas deixa claro que fala em nome de Murshids superiores. Essa "liderança oculta" não torna os Batini populares entre os outros magi, que questionam a lealdade verdadeira dos Sutis.

Iniciação: Um Murid testa o sabr de um recruta promissor através de perguntas, contradições aparentes e enigmas irritantes. Se o pupilo for bem-sucedido, será levado diante do khanaqah, interrogado e talvez iniciado. Depois, ele se torna um "filho" de sua "família" e começa uma instrução de sete anos. Quando a termina, ele é aceito como um Murid.

Daemon: O Bos (Junco) guia um investigador de volta às lagoas no topo do Monte Qaf. Até que retorne, o Junco assobia queixosamente, lamentando sua separação do Todo.

Afinidades: Conexão, Mente e Terra.

Seguidores: Refugiados mouros, comerciantes árabes, sábios errantes, dançarinas de haréns, escravos, fazendeiros, membros de família.

Conceitos: Médico, comerciante, erudito, sedutora, alquimista, defensor da fé.


Estereótipos

Magi do Conselho: Sangue foi derramado entre nós e não pode ser esquecido; mesmo assim, em nome da Unidade, todos os filhos de Alá devem ser tolerados, se não amados. Se nos recusarmos a abrigar uns aos outros, a tempestade irá arrastar todos nós.

Dedaleanos: Suas palavras são sábias, mas seus métodos são o sangue e a poeira.

Infernalistas: Jante com Iblis (Diabo) e você será queimado.

Discrepantes: Os oásis são poucos e estão longe uns dos outros. Caminhe sem destino se quiser, mas não me culpe se você morrer.

Desauridos: Nenhum vento do deserto é tão implacável quanto os sonhos de um louco.




Prefiro oferecer minha mão que a lâmina da minha espada. Pergunto-me qual você irá escolher?



Referência bibliográfica
BRUCATO, Phil. Mago: a cruzada dos feiticeiros. São Paulo. Devir. 2002.

Um comentário:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Os Ahl-i-Batin são demais...

Hugo Marcelo